Morte aos Infiéis! – Do atentado no Quênia à sua obstinação por 'Vitória'.

De que Espírito vocês são?
Por Fernando Bispo*

         Acredito que todos nós ficamos chocados ao ver ataques terroristas de grupos religiosos fundamentalistas. Gente que mata em nome de um deus, ou antes, gente que crê que o deus cultuado exige tais mortes. 
         Essa realidade ainda me parece distante, restrita aos noticiários, nos boletins sobre coisas do outro lado do mundo. Mas, recentemente, a senti mais perto. Como se essa realidade tivesse cheiro e, embora não a visse diante dos meus olhos, a pude sentir. 
         Faço parte da equipe da Cruzada Estudantil, e alguns de nossos estudantes sofreram o ataque terrorista na Universidade no Quênia. Não que eu não me importasse com os outros ataques, mas esse específico envolvia pessoas da mesma organização que participo. Fiquei muito pensativo.
         Pensei na dor das vítimas, mas também na convicção dos agressores. E em como é fácil deixar que uma forte convicção se transforme em agressividade. Pensei nas realidades mais próximas a mim, observando convicções agressivas ao meu redor. E tive medo.
         Estou muito próximo de pessoas do movimento evangélico do Brasil. E vejo que, embora não tenhamos atos terroristas estritos, esse ambiente tem cultivado uma “versão bélica do evangelho”. Guerra, batalha, luta, vitória, inimigo, soldado, conquista e tantas outras são palavras comuns desse meio.
         As atividades missionárias são vistas como o Reino das Trevas versus o Reino da Luz, nos quais os cristãos são os soldados do Reino da Luz e não só o diabo é visto como Reino das Trevas, mas todo aquele que não é cristão. Embora numa conversa equilibrada a maioria dos cristãos não admita isso, na prática coloca o rótulo de inimigo ou de território a ser conquistado em todo aquele que não compartilha de sua fé, ou todo o que não é do seu exército.
         Por conta da atividade que desenvolvo, lido com a ideia de “território a ser conquistado” o todo o tempo. E tenho lutado internamente para abandonar esses termos. Não gostaria que ninguém se aproximasse de mim com o objetivo de me dominar. É um tipo de aproximação muito violenta. As conversas deixam de ser diálogos onde ambos aprendem, para se tornar uma batalha campal onde o outro precisa ser destruído em seus argumentos, humilhado, e subjugado.
          Lembro de Jesus numa conversa com os discípulos:
         Aproximando-se o tempo em que seria elevado ao céu, Jesus partiu resolutamente em direção a Jerusalém.
E enviou mensageiros à sua frente. Indo estes, entraram num povoado samaritano para lhe fazer os preparativos; mas o povo dali não o recebeu porque se notava em seu semblante que ele ia para Jerusalém.
         Ao verem isso, os discípulos Tiago e João perguntaram: “Senhor, queres que façamos cair fogo do céu para destruí-los? “
         Mas Jesus, voltando-se, os repreendeu, dizendo: “Vocês não sabem de que espécie de espírito são, pois o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los”; e foram para outro povoado. Lucas 9:51-56
         A agressividade é um traço da humanidade. Quando nos sentimos acuados, desprezados ou ignorados nos defendemos impondo nossa ira. Se compartilhamos de uma crença, transferimos nossa ira para Deus, e anunciamos ao mundo que Deus está irado, e descarregamos nossa ira nos demais em nome desse Deus. 
         Foi exatamente isso o que Tiago e João viveram. Eles vinham de um ministério extraordinário com Jesus. Vendo todo tipo de milagre. Tinham a convicção de que Jesus era o messias. Pela lógica deles, Deus mandaria fogo do céu para consumir tudo o que fosse oposição. A resposta de Jesus é: “vocês não sabem de que espécie de espírito são”.
         O Espírito de Jesus não é o que vem destruir mas salvar. Precisamos abandonar essa abordagem bélica! Sinto falta de algumas palavras: pobres, misericordiosos, pacificadores, humildes, irmãos, graça, verdade, generosidade, compaixão, reconciliação, descanso, alegria…
         A sonoridade do idioma francês pode nos ajudar nessa hora: Dieu des armées; Dieu désarmé. O Deus dos Exércitos é o Deus desarmado.
*Fernando Bispo é formado em Química pela Uerj e atua há 10 anos como missionário da Cru Campus

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