A incrível relação entre uma cadeira bem feita e sua vocação universitária

Por Wesley Cunha*

     Recentemente eu ouvi alguém dizer que, no período da Reforma, quando alguém queria saber se um carpinteiro era cristão, tomava-se uma cadeira fabricada por ele, olhava-se na parte de baixo do assento (onde ninguém vê) e verificava-se ali o acabamento. Se estivesse com a mesma qualidade do restante da peça, sabia-se que era um cristão. Porque o cristão fazia a cadeira para a glória de Deus.  E Deus, ao contrário de nós, vê o todo. O genuíno cristão tinha a consciência, portanto, que o seu trabalho era um culto a Deus1.

     Esse é um paradigma completamente diferente do que herdamos dos gregos, que viam o trabalho como um mal necessário, um meio para se alcançar o fim que era o ócio – de onde se podia desenvolver o que era realmente produtivo ao ser humano, no campo das ideias, das virtudes e da prática cívica2.
     De fato, a palavra portuguesa “trabalho”, vem de do latim “tripalium”, que era um instrumento de tortura usado na Idade Média3. Vemos, portanto, como a ideia de trabalho, em nossa cultura, está associada ao sofrimento.
     Em contraste, a mesma palavra usada com o significado de “trabalhar o solo” (avodá), é usada também para serviço/adoração divina4! Essa palavra é usada em Gênesis 2.15, quando Deus dá a ordem de cultivar o Jardim do Édem. Isso é especial porque nos dois primeiros capítulos de Gênesis vemos ordens de trabalho dado ao homem (1.28; 2.8, 15, 19,20), antes da queda – o que anula a ideia de que o trabalho é um efeito colateral do pecado.
     Na verdade, como no primeiro capítulo de Gênesis o protagonista é Deus trabalhando (Gn 2.2), vemos que ao dar uma parte do trabalho ao homem, este está sendo identificado com o Criador. Em outras palavras, o trabalho é mais uma forma com a qual somos imagem e semelhança de Deus.
     O trabalho, portanto, não deve ser visto como um mero meio ou uma plataforma para fazer o “ministério”. Precisamos compreender que o trabalho, em si, tem valor pra Deus e que pode trazer glória a ele. Assim como a palavra inglesa “service” pode ser traduzida, entre outras coisas, por “culto”, devemos enxergar o nosso trabalho como um ato de culto a Deus.
     É claro que o trabalho também é uma oportunidade de evangelizar e levantar dinheiro para outras necessidades dentro da missão da igreja. E isso deve ser feito, até para aproveitar todas as oportunidades que o trabalho gera. Mas se nos demos conta de que o trabalho que fazemos também é, em si, obra de Deus e para Deus, tudo o que fizermos se encherá de significado.
     Queremos que cada estudante e cada profissional que está lendo este texto seja como aquele carpinteiro: que esteja consciente que tudo o que faz é, em si, um trabalho para Deus. Se isso acontecer, eu vejo, pelo menos, três consequências: teremos pessoas mais realizadas e conscientes de que o trabalho que fazem é cheio de significado; Deus será glorificado através do processo e do resultado de nosso trabalho; e, certamente, teremos um mundo com cadeiras melhores.
*Wesley Cunha formou-se em arquitetura na Universidade Federal Fluminense e atua como missionário na Cru Brasil. Atualmente é diretor da Cru Rio. 
Referências:
1.       Podcast Missão na Integra – ‪‎MI008: Maurício Cunha – O Discípulo e as Boas Obras (altamente recomendado)
2.       Cru.Comm – More than a job – Centerfield Productions, Cru Press, 2007. Pode ser adquirido em http://crupress.com/products/cru-comm/
3.       Leia mais em http://www.dicionarioetimologico.com.br/trabalho/
4.       Explicação de Eli Lizorkin-Eyzenberg, estudioso israelense de Literatura Judaica e Cristã. http://migre.me/rBzvE

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